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Expedição - Histórias de Índios
14/06/2017 16:51 em Brasil

 

A jovem Naiara Alicia Bertoli é de Guaramirim e se deixou levar por uma inquietação que só àqueles cuja curiosidade alimenta a alma sabem identificar. Formada em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Naiara trabalhava com contação de histórias infanto-juvenis no projeto Baú Multicultural, realizado pelo SESC Estreito/Florianópolis em parceria com a Secretaria de Educação daquele município. Ia de escola em escola contar histórias africanas, afrodescendentes, de gênero e indígenas com o objetivo de incentivar os professores a abordarem esses temas de forma transversal nas salas de aula. 

Ela paralisou quando percebeu que não poderia contar as histórias indígenas. “Eu não os conhecia a ponto de interpretar as histórias com fidelidade e veracidade. Se o fizesse, estaria apenas reproduzindo estereótipos”, explica Naiara. “Na faculdade vimos muito pouco sobre os rituais indígenas. Normalmente o nosso repertório está voltado para o que recebemos da cultura europeia, nossa referência é de lá”, complementou.

Nasce uma nova história

Com a bagagem lotada de curiosidade, Naiara partiu desbravar um novo universo. A pesquisa se tornou projeto de Mestrado que, após concluído, será fonte de conhecimento para os demais interessados e irá valorizar a tradição da oralidade indígena. O primeiro desembarque na Região Norte do Brasil ocorreu em outubro de 2016, em Santarém, onde Naiara participou do IV Encontro Nacional de Estudantes Indígenas.

Meses depois, em 13 de janeiro de 2017a aventura começou a ser escrita. Ela desembarcou em Manaus e de lá seguiu para São Gabriel da Cachoeira, cidade cuja população é 99% composta por indígenas. Foram quatro dias de barco pelo Rio Negro até chegar à cidade de Santa Isabel, onde ela travou contato com os Barés – primeiro povo indígena (da região) a ter contato com o homem branco. 



Naiara partiu para a comunidade de Itacoatiara-Mirim, dos Baniwa, povo originário das margens dos rios Aiari e Içana e instalados no Alto Rio Negro, em uma área periurbana ao município de São Gabriel. Em troca, Naiara também integrou um segundo projeto, desta vez ao lado das crianças, em prol da Maloca do Conhecimento e da valorização e preservação da memória e da cultura indígena. 

“Nos reuníamos com as crianças sempre nas 2ª, 4ª e 6ª feiras na Maloca. O cacique contava as histórias e um amigo meu desenhava e ilustrava as palavras dele enquanto eu fazia as encenações teatrais”, diz Naiara, que completa: “Começamos a escrever essas histórias e vamos transformá-las em um livro que, em breve, ficará à disposição da Maloca”.

Histórias e raízes das mulheres do Rio Negro

Já instalada na comunidade e acompanhando, diariamente, a rotina das índias, a estudantes decidiu mudar o foco do seu projeto. Através da contação de histórias, ela desejou que às mulheres indígenas sentissem verdadeiramente o papel que representam, diariamente, de sol a sol: o de protagonistas da comunidade. Um grupo com 10 mulheres foi composto. 

As reuniões ocorriam duas vezes por semana e uma peça de teatro acabou montada e encenada no dia 22 de abril, durante a tradicional festa em lembrança ao Dia do Índio, comemorado em 19 de abril. Na Maloca, as histórias que elas contavam e as músicas que cantavam e que aprenderam com suas antepassadas se tornaram atração principal da noite. A apresentação durou cerca de 20 minutos. 

“Eles vivem em uma sociedade paternalista em que são principalmente os homens que regem as condutas e as escolhas das famílias. São eles que estão mais inseridos nos meios sociais. Acho que por isso pode ter sido marcante a presença de um grupo só de mulheres, oportunizando um momento para se verem e serem vistas como protagonistas. Afinal, em vários aspectos do dia a dia, como nas colheitas e plantações, são elas as responsáveis pelo planejamento e cuidado diário.”

Pouco após a peça e retribuir o carinho com o qual foi recebida, Naiara aproveitou recursos que tinha arrecado para obras de construção de rede de distribuição de água para os imóveis da comunidade, para retribuir o carinho com o qual foi recebida e comprar e enviar, de Manaus a São Gabriel, os itens que as indígenas desejavam, como roupas e calçados adultos e infantil, roupas de cama, utensílios domésticos e uma infinidade de outras coisas. 



Naiara retornou a Guaramirim dia 20 de maio para um novo capítulo. Vai desenvolver seu projeto, escrevê-lo e fundamentá-lo. Depois, planeja voltar para complementar sua história. “Parece muito, mas é quase nada para conhecer um pouco da vastidão que é a cultura indígena", afirma a mestranda. 

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