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Um técnico agrícola com vocação
17/10/2017 - 17h13 em Santa Catarina

 

Quem planta, colhe? No caso do extensionista rural Alcibaldo Pereira Germann, o ditado popular serve como uma luva. Mesmo não tendo sido um empreendedor de negócios próprios na área da agricultura, foi o responsável direto, com suas ideias inovadoras, pela agregação de valores em dezenas de propriedades rurais com características de minifúndios no Norte catarinense e na região do Vale do Itapocu. Particularmente em Guaramirim onde se radicou no início do ano de 1982. 

Persistente como poucos, ao longo de 42 anos esse servidor público lotado na então Acaresc (Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina) foi pioneiro na disseminação do cooperativismo na bananicultura, em Garuva. A aviação agrícola usada na pulverização dos bananais da região também tem o dedo de Germann. Em passado mais recente, seu trabalho ficou reconhecido no Brasil com a introdução da palmeira real nas propriedades rurais de Guaramirim. Secretário de Agricultura nos governos de Victor Kleine e Mário Sérgio Peixer, Alcibaldo, já aposentado, ocupa atualmente a diretoria da Secretaria de Desenvolvimento e Habitação do prefeito Luís Antônio Chiodini. 

O primeiro desafio

Gaúcho nascido em Osório (RS), formou-se no Colégio Agrícola de Camboriú e, com apenas 19 anos, radicou-se em Garuva, na divisa com o Paraná, município à época com 26 quilômetros de praias desertas (a maior, Itapoá) e densas matas ainda intocadas pelo homem. “Era o verão de 1973 e o município vivia longe do progresso que boas estradas atraem. Asfalto? Só na BR-101”. Recebido pelo então prefeito Darci Pereira da Costa, foi logo apresentado ao presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Werner Hanz Arndt. Ali começava uma parceria sólida. Um programa criado e implantado pela secretaria estadual de Agricultura no início de 1974, em convênio com prefeituras onde a Acaresc não atuava, foi o primeiro dos desafios do extensionista. “Foi o primeiro contato de agricultores e lideranças do meio com um profissional da área técnica”, lembra.

Um trabalho abrangente

O extensionismo rural liderado por Alcibaldo impactou diretamente em cultivos de banana, arroz irrigado, pesca artesanal, olericultura e gado de corte e leite. E, ainda, nas escolas rurais, com incentivo às hortas cultivadas pelos alunos. “Levávamos informações técnicas e tecnologias até então desconhecidas dos produtores rurais. Esse trabalho deu tão bons resultados que, em 1975, a Acaresc decidiu implantar um escritório em Garuva. E aí o desafio ficou ainda maior. Toda a região passou a ser atendida pelo escritório local, o que incluía as comunidades do Quiriri, Cauvi, Cubatão e, até, Vila da Glória, em São Francisco do Sul. “Tudo percorrido a bordo de um sacolejante Jeep”, lembra o extensionista. 

O advento do arroz

Ainda nos anos 1970 foram implantadas as primeiras lavouras de arroz irrigado em Garuva por agricultores de Guaramirim e Massaranduba. Até então, o máximo que se colhia era de 75 a 80 sacas por hectare. “Comparando, no máximo 350 sacas por ano, com a agravante de que os rizicultores locais não tinham outra atividade. Tempos em que o arroz, colhido à mão, ainda era “batido” manualmente e, depois, pisoteado por cavalos para a debulhação”, recorda Alcibaldo. Com a compra de máquinas colheitadeiras a atividade teve um grande impulso, pondo fim à exaustiva colheita à mão.

O crédito rural

Mas, significativas mudanças no meio agrícola só foram proporcionadas pelo crédito rural a juros baixos, com subsídios de até 40% na compra de insumos e fertilizantes. “As propostas de crédito eram orientadas pela Acaresc e encaminhadas ao Banco do Brasil, em Joinville. Só em 1976 foram 106 projetos de crédito, todos formulados na velha máquina de escrever. Hoje em dia o pequeno produtor sequer tem um seguro que garanta perdas provocadas pela chuva, seca prolongada ou outros fenômenos climáticos”, compara Alcibaldo.

A primeira cooperativa

Mas a banana, em Garuva, não era atividade econômica com bom retorno. Ao contrário, muitas doenças afetavam as plantações e a produtividade era baixa. Extração de madeira, de areia do Rio Cauvi, palmito juçara colhido na mata nativa e aipim vendido in natura para Curitiba ou atafonas, rendiam mais. Toda a tecnologia existente era copiada de São Paulo, mas durante um seminário no final dos anos 1970, realizado pela Associação de Municípios do Nordeste de Santa Catarina (Amunesc), em Joinville, decidiu-se pela realização de pesquisas visando ações próprias na bananicultura. “A equipe era reduzida a duas pessoas, eu e uma secretária”. A demanda aumentou no mesmo ritmo da desorganização do setor. Então, a opção foi criar uma cooperativa, o que ocorreu em 29 de fevereiro de 1979. No início, eram 23 associados, com o nome de Cooperbanana e, em pouco tempo, cerca de 480. “Infelizmente, a ação de empresários mal intencionados e golpistas tomando dinheiro emprestado em nome de produtores obrigou o fechamento da cooperativa anos mais tarde”, lamenta Alcibaldo, que denunciou todo o esquema.

Aviação agrícola em Guaramirim

Por conta disso, Garuva se tornou um lugar inóspito para o extensionista rural, que acabou removido para Guaramirim, no início de 1982, com o aval do então governador Wilson Pedro Kleinünbing. Seu pioneirismo aflorou mais uma vez. Envolvido diretamente com produtores de banana de Schroeder, Jaraguá do Sul e Guaramirim, em uma das oito edições da Expofeira conheceu um empresário de Itanhahém (SP), que trouxe um avião utilizado para a pulverização de bananais. “O que era feito aqui com uso de tratores onde a topografia permitia, ou manualmente. Um trabalho demorado, caro e de alto risco. Em inúmeras reuniões com produtores conseguimos a adesão da maioria”. Uma passagem cômica durante reunião na localidade de Garibaldi, quando um produtor questionou: “Pode internar o Alcibaldo. Onde já se viu voar pelo meio desses morros aqui?”. A primeira pista de pouso foi construída em Guaramirim numa parceria com o governo do prefeito Antônio Carlos Zimmermann. Depois, outras foram implantadas em municípios da região, com duas para uso exclusivo da Duas Rodas.

Capital da palmeira real

Membro ativo da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Guaramirim, em 1995 Alcibaldo, mais uma vez, envolveu-se em outra ação pioneira e que resultou no título de Capital Catarinense da Palmeira Real, concedido pela Assembleia Legislativa em projeto proposto pelo ex-deputado estadual Dionei Walter da Silva. Membro do Núcleo da Indústria da Aciag, o extensionista rural coordenou o primeiro seminário nacional do gênero com 117 interessados no plantio da espécie. “Ocorre que os palestrantes só falaram sobre cultivo da pupunha. Porém, passamos a receber interessados do Brasil inteiro e até do Paraguai”. A degustação do palmito da palmeira real veio por acaso, pelas mãos de Vilson Tomellin, dono da empresa Verde Vale, em uma das reuniões do núcleo. “Ninguém conhecia aquilo. Depois ele me trouxe um saco de mudas e outro de sementes e a coisa cresceu. Mas tudo feito sem qualquer tecnologia e quase nenhum sucesso. Porém, fomos a campo de novo, com pesquisas, participei de curso específico, introduzimos a diversificação de espécies”. 

O trabalho resultou, ainda, na implantação do primeiro viveiro de mudas da região, em Guamiranga. “Hoje temos a palmeira real, a pupunha e a palmeira imperial espalhadas pela região. São importantes fontes de renda para muita gente (não há valores revelados ou sobre o impacto econômico no município). O agricultor não pode depender apenas de uma atividade, precisa agregar valor à sua propriedade”, observa Alcibaldo. Só em Guaramirim, são cerca de 200 propriedades com o cultivo dessas espécies de palmeiras (250 hectares de palmeira real e outros 150 com pupunha e palmeira imperial), com 10 mil pés plantados por hectare. “Isso rende, em média, 10 mil vidros”, concluiu. A produção abastece o mercado varejista.

FRASES

“Quando levei a ideia da aviação agrícola aos produtores do Garibaldi, um deles disse que deveriam me internar”

“O que encontrei quando cheguei, o que deixei quando saí e o que outros vão encontrar faz parte da evolução das coisas”

“É preciso viver cada momento com os olhos voltados para o futuro e comemorar com alegria o sucesso das famílias rurais”

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