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Os mapas de Martinho Domiense Pinto Braga/Emil Odebrecht e Emílio Carlos Jourdan no Vale do Rio Itapocu (em comemoração aos 141 anos do município de Jaraguá do Sul)
24/07/2017 17:30 em Cultura

Autor: Fabio Krawulski Nunes

 

Antes mesmo das demarcações de terras dotais do Conde e Condessa d´Eu no vale do rio Itapocu e parte da região do rio Negro no planalto catarinense no ano de 1873 e 1876/77, alguns engenheiros e agrimensores a serviço do governo imperial brasileiro (entre o final da primeira metade do século 19 em diante), já conheciam em parte o vale do rio Itapocu como, por exemplo:

Jerônimo Francisco Coelho no ano de 1846 (demarcação de terras da futura colônia Dona Francisca / atual Joinville);

Carl Pabst, Franz Albrecht Fellechner, Buehner (somente este nome) e mais 13 trabalhadores no ano de 1855 (procurando uma via de comunicação entre a colônia Dona Francisca com o planalto através do rio Itapocuzinho);

Carl August Wunderwald nos anos de 1859 (atual localidade de Poço Grande em Guaramirim), 1861 (fez sua primeira incursão pelo vale do rio Itapocu, partindo da colônia Blumenau até a colônia Dona Francisca) e 1863 (fez sua segunda incursão pelo vale do rio Itapocu, partindo desta vez da colônia Dona Francisca até a colônia Blumenau);

Emil (Emílio) Odebrecht no início do ano de 1864 (esteve no divisor de águas do rio do Testo e rio da Luz, dando o nome do lugar de “Passo da Concórdia”);

Henrique Kreplin e Carl August Heeren entre o final do ano de 1869 e início de 1870, quando fizeram a demarcação dos limites da colônia Dona Francisca com as terras da Sociedade Colonizadora de Hamburgo, chegando num dos braços que formam o rio Itapocu (entre Corupá e São Bento do Sul), batizando de “rio Humboldt” e seus respectivos afluentes de “rio do Ano Novo” (Ano Bom) e “rio Natal”.

Mas o que estarei focando nesta publicação são dois mapas da demarcação de terras dotais do Conde e Condessa d´Eu que foram realizadas no vale do rio Itapocu primeiramente pelo cearense Martinho Domiense Pinto Braga com o pomerano Emil (Emílio) Odebrecht no ano de 1873, e alguns anos depois pelo belga Emílio Carlos Jourdan no ano de 1876 e 1877 (mapa confeccionado alguns anos depois entre 1883 e 1884).

 

OBS: “O Primeiro Livro do Jaraguá” do Frei Aurélio Stulzer (publicado no ano de 1973), será usado como referência bibliográfica principal para o esclarecimento de algumas informações dos mapas a seguir.

 

Sobre o mapa (croquis) de Martinho Domiense Pinto Braga / Emil (Emílio) Odebrecht, confeccionado em 1873:

“MAPPA – De um territorio de doze leguas quadradas situadas no Alto Itapocú, provincia de Santa Catharina, demarcadas pela Comissão á Cargo do Engenheiro Martinho Domiense Pinto Braga para patrimônio de S.S. A.A. Imperiaes”. 

Apesar de se encontrar em nome do engenheiro responsável Martinho Domiense Pinto Braga, foi o auxiliar dele Emil (Emílio) Odebrecht quem contribuiu com uma boa parte de informações para a elaboração deste mapa (croquis), pois o mesmo foi o responsável pela demarcação ao sul (lado direito) do rio Itapocu (rios Novo, Jaraguá e Serra) entre os meses de abril a julho de 1873.

Quem quiser saber maiores detalhes sobre a primeira demarcação de terras dotais realizada no vale do rio Itapocu, as informações se encontram no “O Primeiro Livro do Jaraguá” do Frei Aurélio Stulzer no Capítulo 4 (páginas 24 a 35), além do capítulo 11 (página 141, que menciona a “picada Odebrecht” e será esclarecida no mapa seguinte).

OBS: o mapa (croquis) original se encontra com outras duas cópias disponíveis no AHJ (Arquivo Histórico de Joinville / SC). Este mesmo mapa (croquis) foi publicado no dia 25 de julho de 2016 pelo Facebook no grupo: Antigamente em Jaraguá do Sul (em comemoração aos 140 anos de Jaraguá do Sul).

 

https://www.facebook.com/groups/antigamenteemjaragua/permalink/1048173785236369/

 

Sobre o mapa de Emílio Carlos Jourdan (sem data), contudo, confeccionado entre os anos de 1883 e 1884.

“Planta geral do vale do Itapocu na província de Sta. Catarina e do vale do rio Negro na parte contestada entre as províncias de Sta. Catª e do Paraná e na parte escolhida para fazer parte do patrimônio total de SS. AA. os Senhores Príncipes Conde e Condessa d'Eu, compreendo 53 léguas quadradas, para compreensão do projeto de trainway que deve ligar a navegação do rio Itapocu (litoral) a navegação interior do rio Negro, Iguaçú e Paraná (roteiro do Cap.ão Álvaro Nunez Cabeça de Vacca no ano 1539-40) e para apoiar o requerimento, solicitando iguais favor aos concedidos à Cia. Colonizadora de Hamburgo para organização da Companhia Colonizadora do Norte de Santa Catarina afim de poder colonizar o patrimônio dos mesmos Augustos Senhores, como se fez para o patrimônio de SS. AA. os Senhores Príncipes e Princesa de Joinville”.

 

O mapa do belga Emílio Carlos Jourdan é na verdade dois (separados em duas seções ou folhas), sendo que a primeira seção ou folha (escala 116x173cm, com legenda) mostra a maior parte do vale do rio Itapocu (desde os contrafortes da serra até o litoral do atual município de Barra Velha), além de Paraty (atual município de Araquari), ilha de São Francisco (do Sul) e Joinville (antiga colônia Dona Francisca). A segunda seção ou folha (escala 118x145cm) mostra a parte do planalto que compreende desde o atual município de Rio Negrinho até a região que compreende a antiga vila de Rio Negro (atuais municípios catarinenses de Mafra e Itaiópolis e município de Rio Negro no estado paranaense). As informações a respeito deste mapa se encontram no “O Primeiro Livro do Jaraguá” do Frei Aurélio Stulzer no Capítulo 3 (páginas 17 e 18), Capítulo 11 (páginas 109 e 110), e Anexo 1 -  As Escrituras (página 269 / IV – Os Planos de Jourdan referentes ao Jaraguá), (páginas 283 e 284 / VII – Os Mapas do Itapocu). OBS: a linha que fica no canto superior direito do mapa que começa a partir de Neudorf em direção a Joinville, se encontra apagado a seguinte legenda “Estrada Colonial”.

Infelizmente este mapa (duas seções ou folhas) ainda se encontra desde os tempos de pesquisa do Frei Aurélio Stulzer no início da década de 70 do século passado até os dias de hoje em processo de difícil restauração para poder ser escaneado e que está aos cuidados do CODAC (Coordenação de Documentos Audiovisuais e Cartográficos) do Arquivo Nacional no Rio de Janeiro / RJ (catalogado com a identificação F2/Map.25), sendo que a primeira seção ou folha é a que mais precisa de restauração, pois a parte que compreende a faixa litorânea se encontra toda borrada e quase ilegível, parcialmente rasgado (faltando pequenos pedaços) e com emendas de fita durex e desprendido também um pedaço das bordas. Na segunda seção ou folha, também precisa de restauração, pois se encontra também parcialmente rasgado e desprendido um pedaço das bordas. Mesmo assim, foi possível através dos recursos de hoje fazer uma sobreposição de imagens em perspectiva e assim fidelizar cerca de 80 por cento da primeira seção ou folha deste mapa (excluindo neste caso os 20 por cento da faixa litorânea quase ilegível e danificado). Na segunda seção ou folha, foi separado apenas 20 por cento que corresponde ao atual território de Rio Negrinho (parte que é de interesse nesta publicação).

 

 

Algumas comparações de parte do mapa de Martinho Domiense Pinto Braga / Emil (Emílio) Odebrecht (a esquerda) com o mapa de Emílio Carlos Jourdan (a direita), pois ambos mostram o atual rio da Luz como sendo o braço mais comprido do “rio do Serra” ou “rio do Serro” (atual rio Cerro, ambos assinalados com círculo vermelho), sendo que o braço mais comprido do atual rio Cerro foi batizado no mapa de Emílio Carlos Jourdan com o nome de “rio da Itupava” (assinalado com círculo azul). Coincidência ou não, no outro lado do divisor de águas da serra de Jaraguá na localidade de Rio Cerro 2 (nascentes do Alto da Serra e Aurora), se encontra no outro lado dos referidos acidentes geográficos a nascente do “rio Itoupava Rega” (afluente do rio Itajaí Açu) na localidade do mesmo nome em Blumenau. As palavras “Itoupava”, “Itupava” e “Itaipava” significa na tradução do tupi guarani para o português de "Corredeiras ou pequenas quedas d´água". 

 

Em relação as demarcações de lotes realizados pelo Belga Emílio Carlos Jourdan no entorno do “Engenho de Açúcar” e também na “Futura Vila” na atual região central de Jaraguá do Sul, as informações a respeito se encontram no “O Primeiro Livro do Jaraguá” do Frei Aurélio Stulzer no Capítulo 9 (páginas 77 a 85).

 

Sobre a “picada Odebrecht” (“O Primeiro Livro do Jaraguá” do Frei Aurélio Stulzer no Capítulo 11, página 141), tudo indica que Emílio Carlos Jourdan já tinha conhecimento desta trilha aberta anteriormente por Emil (Emílio) Odebrecht pois, coincidência ou não, aparece também no mapa confeccionado por ele uma linha tracejada próximo das cabeceiras do Ribeirão Cavalo com o rio Pedra de Amolar (seta verde). Não muito distante também se encontra o local onde seria o ponto inicial “B” da trainway (Estrada de Ferro projetada por Emílio Carlos Jourdan) entre a foz do rio Pedra de Amolar com o rio Itapocu no atual município de Corupá (seta vermelha), passando este projeto da trainway paralelamente no lado direito do atual rio Novo e também ribeirão (dos) Correia em direção ao ponto “A” que ficava na cabeceira do Rio Negrinho (ou Pretinho).

 

Parte do mapa da seção ou folha 1 que se encontra quase ilegível e de difícil recuperação. Mesmo assim, é possível identificar algumas anotações feitas por Emílio Carlos Jourdan como, por exemplo, “Porto do Sertão” (seta branca, próximo da foz do rio Piraí com o rio Itapocu), Barra do Itapocu (seta azul, foz do rio Itapocu com a lagoa de Barra Velha e o mar), 1º e 2º Projetos do “Canal do Jourdan” (setas verdes, nos atuais municípios de Araquari e Barra do Sul), entre outros.

 

Parte da seção ou folha 2 que mostra apenas o atual município de Rio Negrinho. Nele é possível enxergar na linha tracejada por onde Emílio Carlos Jourdan entrou na altura do Rio Negrinho ou Pretinho (seta vermelha) no final de fevereiro de 1876 para fazer as demarcações de terra no vale do rio Itapocu, onde aparece na borda direita deste mapa (seta verde) parte da legenda “Ponto inicial “A” da Tranway”. Emílio Carlos Jourdan esteve novamente na região de Rio Negrinho no ano de 1877 para fazer as 12 léguas restantes que faltavam, contudo, suas medições foram reprovadas. A informação a respeito se encontra no “O Primeiro Livro do Jaraguá” do Frei Aurélio Stulzer no Capítulo 9 (nota 4 da página 85).

 

Sobre o autor: Fabio Krawulski Nunes, pesquisador autodidata da historiografia e arqueologia no vale do rio Itapocu, começou a publicar seus artigos no Jornal do Vale do Itapocu desde o final de 2009, com os títulos “Os Afro Descendentes e sua história no Vale do Itapocu” e “História sobre a extração de Ouro e Pedras Preciosas no vale do rio Itapocu”; 2010, com os títulos “100 anos da estrada de ferro no vale do rio Itapocu”, “Documentos relacionados com o rio Itapocu a partir do século XVI / Peabiru - 16 Partes”, “Outras regiões do Brasil e países vizinhos e pessoas com o nome Itapocu  - 4 Partes”, entre outras publicações; 2011, com os títulos “Rio Itapocu nos tempos da cartografia antiga – Século XVI – 8 Partes”, entre outras publicações); 2015, com o título “Abrigo Rückl / Cemitério dos Botocudos – 3 Partes”; 2016, com o título “Celebrando no mês de novembro os 475 anos da expedição espanhola sob o comando de Álvar Núñez Cabeza de Vaca no vale do rio Itapocu” e 2017, com os títulos “Anton / Antônio Maller Junior, um entomologista que levou o nome da antiga Hansa Humboldt / atual Corupá para o mundo” e “Os mapas de Martinho Domiense Pinto Braga / Emil Odebrecht e Emílio Carlos Jourdan no vale do rio Itapocu”. Possui atualmente dois blogs (arqueologiavaledoitapocu.blogspot.com.br) e (peabirucatarinense.blogspot.com.br). Lançou oficialmente no final de 2014 o documentário “Redescobrindo o Itapocu” (disponível no Youtube). Em breve, estará lançando um livro com o mesmo título, reunindo todas as pesquisas que já foram publicadas no Jornal do Vale do Itapocu e outros trabalhos de pesquisa ainda inéditos.

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