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Reduzida em 60% a necessidade de antidepressivos a pacientes da rede municipal
29/11/2019 13:47 em Saúde
 

Queda no consumo de 10 mil para 4 mil cápsulas mensais é resultado de trabalho desenvolvido por equipe da Secretaria de Saúde

Um trabalho realizado pelo psiquiatra da Policlínica de Especialidades Dr. João Biron (Centro Vida), Marcelo José Fontes Dias, e pelo psicólogo do Caps AD, Matheus Vinicius Munhoz, resultou em 60% de redução no consumo de antidepressivos por pacientes de saúde mental da rede municipal de Jaraguá do Sul. De acordo com Dias, essa estatística iniciou em março, quando 450 pacientes tomavam um total de 10 mil cápsulas de Fluoxetina mensalmente. Com a adoção de nova metodologia no atendimento, em cerca de oito meses esse consumo caiu para 4 mil cápsulas mensais. Além disso, o número de pacientes atendidos no Centro Vida diminuiu para 150 pessoas. “Muitos receberam alta e outros voltaram para a atenção básica”, informa o psiquiatra.

Marcelo Dias destaca que, apesar de impactante, não houve milagre nesse resultado, porém exigiu uma investigação atenta para chegar ao diagnóstico desse alto consumo e prescrever uma estratégia capaz de solucionar o problema. O ponto de partida foi perceber que a rede municipal dispõe de estrutura para atendimento somente de casos extremos: os mais graves – surtos psicóticos e risco de suicídio iminente, por exemplo – são encaminhados aos Caps; e os leves, que envolvem situações específicas da vida, como separação ou perda, ficam na atenção básica. “Mas não há opção aos casos de sofrimento mental, que não são considerados graves, nem leves e necessitavam de psicoterapia, psicanálise, uma escuta qualificada daquelas situações”, constatou Dias.

Assim, ele observou que esses casos são encampados pela atenção básica ou vão para os Caps, onde também não é oferecido psicoterapia, com trabalho de oficina e terapia em grupo, por exemplo. “Analisando a situação, percebi que a falta desse tipo de atendimento não permitia às pessoas tratarem as causas de seus problemas, focando só nos sintomas, com um monte de medicação”, conclui Marcelo Dias, explicando que, em psiquiatria, medicamentos são receitados para os sintomas e não para a causa do problema. “E era muita medicação, tanto nos Caps e na atenção básica, quanto na especialidade, aqui no Centro Vida”, destaca.

A consequência desse excesso de remédio aos pacientes, segundo Dias, é que o médico da atenção básica encontra dificuldade em lidar com eles, porque se sente inseguro para manejar esses medicamentos e o encaminha ao especialista. “Quando vem para o especialista, o paciente continua tomando muitos medicamentos, devido ao elevado número de atendimentos do especialista e intervalo grande entre as consultas”, justifica, complementando que, com isso, ele não consegue mais voltar para a atenção básica, onde está seu médico de referência.” Como não há uma troca de informações entre o médico da rede e o especialista, o paciente acaba ficando somente com o segundo profissional.

DEPENDÊNCIA
Uma vez constatado esse problema, outra séria dificuldade precisava ser superada: a dependência causada pelos medicamentos. “Antes pensava-se que os faixa preta causavam dependência, mas hoje percebe-se que os antidepressivos dão até mais sintomas de abstinência”, avisa Dias. Ele diz que esse tipo de remédio demora mais para deixar a pessoa dependente, sendo necessário tomá-lo por quatro ou cinco meses, enquanto que com os classificados como faixa preta, basta um mês de consumo. “No entanto, para retirar o antidepressivo é muito mais difícil, pois tem muito mais efeito colateral e pode ficar meses com sintomas de abstinência”, salienta o psiquiatra.

ABSTINÊNCIA
Marcelo Dias relata que, diagnosticada a dependência, outra luz de alerta se acendeu ao perceber que o paciente confundia os efeitos colaterais da abstinência com os sintomas do sofrimeto mental. “Ele parava com a Fluoxetina e pensava que a depressão tinha voltado, acreditando que fosse a falta do remédio.” Com isso, mais um desafio se apresentava à equipe: como superar a abstinência?

Trabalhar a abstinência é complicado e no Brasil temos uma dificuldade a mais, pois os medicamentos não são fracionados conforme a necessidade para sua redução gradativa”, lamenta o psiquiatra. Conforme Dias, para tirar um antidepressivo de uma pessoa dependente, é preciso reduzir 10% da dose a cada mês, porém as indústrias farmacêuticas não fazem dose fracionada. “Nossas opções são reduzir de um pra meio ou de dois pra um, o que é 50%, e o paciente acaba entrando em abstinência.” Mesmo assim, estão obtendo um bom resultado.

ESTRATÉGIA
Ouvir mais e medicar menos é a estratégia adotada por Marcelo Dias e Matheus Munhoz. Para isso, decidiram atuar no processo de trabalho e começaram a reservar mais tempo no atendimento, destinando 40 minutos a cada paciente. “Como sou psicanalista, comecei a investigar, sair um pouco dos sintomas, pra trabalhar a causa deles; passei a escutá-los pra fazer esse trabalho com eles”, detalha Dias, complementando: “Eu e Matheus passamos a trabalhar em conjunto e alguns dos casos em que havia necessidade de uma frequência maior de atendimento – semanal, por exemplo – eram assumidos por ele.”

Dentro dessa estratégia, o psiquiatra conta que adotou como método estabelecer prioridades nos atendimentos, como se fosse uma classificação de risco, a exemplo do procedimento de Manchester realizado em setor de pronto socorro dos hospitais. Por exemplo, um paciente está tomando remédio há muito tempo, não tem muito mais demanda e não quer resolver seu problema, mas só tomar remédio; então, ele pode retornar à consulta mais espaçadamente. Outro paciente pode ser acompanhado na atenção básica. “Comecei a fazer isso no ambulatório também, com classificação de risco e priorização e verifiquei que podia dar alta a muitos deles”, complementa.

PROPOSTA
Mesmo festejando o resultado obtido, Marcelo diz que o trabalho continua sendo realizado, porém com muita dificuldade. “A intenção é ampliar esse trabalho e o ideal seria Matheus vir trabalhar junto, com mais tempo”, propõe. Ele também reivindica que a equipe deve ser integrada por psiquiatra, psicólogo, assistente social e profissionais de práticas integradas (acupuntura; fitoterapia). “Montando uma equipe que possa tratar o paciente com pouco remédio, estaremos preenchendo o vazio existente hoje para esse tipo de atendimento na nossa rede”, defende Dias.
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